
Há um tempo estava eu vasculhando a banca de revistas perto do meu trabalho atrás de alguma coisa boa e barata. É fácil achar naquela pilha de coisas que ninguém compra filmes clássicos que todo mundo deveria assistir ou documentários desconhecidos sobre assuntos muito interessantes. Depois digo que brasileiro é sem cultura e ninguém acredita.
Pois bem: Achei um DVD com uma gravação antiga de um show do grande cidadão honorário da malignermânia, macho até debaixo d´água, voz de trovão, espancador de violões e bebedor de cachaça: Mr. Johnny Cash, the man in black. Como sempre fui fã da obra do cara mas nunca tinha comprado nada dele (apesar de Internet ser uma boa, nada substitui uma biblioteca/videoteca física bem selecionada), aliviei o bolso e levei o DVD todo feliz, que ainda tem um documentário bônus sobre os clássicos da música country.
O show em questão é uma apresentação antiga até bem famosa em que ele inclusive imita o Elvis Presley, fazendo a maior graça com os trejeitos do cara. Conhecendo a obra do Man In Black como conheço, e vendo a a troça que ele faz nessa parte do documentário, fico pensando que Mr. Cash devia olhar as dancinhas de Mr. Elvis e pensar: “Que baitolinha!”.
Chamar o Rei do Rock de boiola seria sacrilégio, mas não.
Johnny Cash pode.
Enfim, uma parte do show que eu nunca tinha notado e que depois da terceira vez me chamou bastante atenção é quando na última música ele pára bem sério, olha pra plateia e manda:
“Bom, já estamos indo embora, mas antes vamos a uma última. Essa canção é um Western, e realmente quero tocá-la porque estou muito curioso sobre o que vocês irão pensar dela.”
Então ele começa os primeiros acordes da conhecidíssima “don´t take your guns to town”, na época não tão conhecida assim.
Eu já tinha escutado essa música de Mr. Cash, mas nunca tinha parado para analisá-la a fundo, e confesso que depois que o fiz se tornou umas das minhas preferidas da discografia dele. A letra é sobre um garoto recém saído da adolescência e que sai da pequena fazenda em que vivia para a cidade “grande” (lembrando que a expressão “grande” deve ser pensada nas proporções do velho oeste).
A canção começa bem tranquila, retratando a alegria do rapaz de estar viajando sozinho, vivendo sua nova vida adulta, até que então, sutilmente, como só Mr. Johnny sabe fazer, uma nuvem de trevas saída das obscuras profundezas do mal maligno cai sobre a coisa toda e você se toma conta da dura realidade: A de que o rapaz não está preparado pra realidade. Você inevitavelmente vai dando formas e trejeitos a ele, que no meu caso foram os meus de quando eu ainda era um garotinho assustado, e até torce para que ele se dê bem no final.
mas no final você pensa: “É não poderia mesmo ter acontecido outra coisa.”
Mr. Johnny estava com a razão ao ficar curioso sobre o que achariam da música dele. Mas eu fico ainda mais curioso sobre o que ELE achava. Será que ele era da mesma opinião que eu tenho, de que a sociedade está (e estava) de cabeça pra baixo? Penso que sim.
A verdade é que a sociedade há muito não sabe tratar seus adolescentes, a começar da idéia distorcida de que a pessoa em diversas fases da vida são diferentes. A criança não é o adulto, que não é o adolescente, que não é o idoso.
Bobagem. Todos nós somos a mesma pessoa sempre. E muito embora passemos por conflitos peculiares em cada fase da vida, o fato é que EM TODAS AS FASES DA VIDA PASSAMOS CONFLITOS E TEMOS QUE APRENDER A LIDAR COM ELES.
Daí vemos o seguinte fenômeno: Os pais tentam criar para seus pequenos um mundo dos sonhos, sem traumas nem conflitos. E quando o pobre garotinho faz 13 anos é jogado num mundo completamente diferente. Nos dizeres dos nossos nobre amigos, num mundo CÃO!
Quando o maluco vira adolescente, ele percebe que o mundo não é o sonho, e os pais tentam segurá-lo de todas as formas, botando uma série de freios morais para que ele não faça merda. Adianta? Não.
Lembro ter visto uma reportagem um dia desses que algumas escolas estavam mudando as letras de cantigas de roda para versões mais politicamente corretas. A conhecida “atirei o pau no gato-to, mas o gato-to não morreu-reu-reu” virou “atirei o pau no gato, mas isso-so-so não se faz-faz-faz.”, dentre outras. Nem o boi da cara preta passou na nota de corte por considerarem a idéia de um boi preto maldoso muito racista… Ainda bem que não inventaram “boi da cara sombria”, porque aí já ia ser esculhambação.
Enfim, Beleza, mas aí a criança cresce e descobre que, por mais dura que seja a cruel realidade, as pessoas atiram SIM o pau no gato e que existem SIM bois da cara preta.
Se os pais fossem espertos para mostrarem para os filhos desde a infãncia que no mundo as coisas não são como deveriam ser, o foco do adolescente não seria ficar pensando como deve ser a sensação de arremessar galhos num pobre gatinho indefeso, ou que a existência de bois da cara preta é um fato muito injusto… mas sim passaria a se preocupar sobre como lidar com o fato de que as pessoas atiram o pau no gato e que há bois da cara preta…. E o mais importante: como sobrevive num mundo assim.
Talvez isso seja muito inocente quando se trata de maltratar os pobres animais… Mas acaba não sendo quando se trata de drogas, ou de violência, ou de más companhias… E isso quando se é um adolescente que não cresceu sendo preparado para lidar com o mundo real.
Daí você, como adolescente despreparado, tem três opções:
- Aprende com os próprios erros (o que ás vezes significa meter a mão no fogo pra ver se queima);
- Faz um curso intensivo pra virar macho (e paga caro por isso);
- Continua no seu mundinho adolescente o resto da vida, tornando-se um adulto infantilizado.
Caso você tenha escolhido a terceira opção, um conselho: Venha morar em brasília. A roça com complexo de cosmopolita. Filial da terra do nunca nesta dimensão. O povo aqui é tão bunda que truca até a comunidade judaica do velho testamento.
Mr. Cash, você era um gênio.
Abaixo a letra da música. Está em inglês. A tradução tá lá no letras.terra.
(Obs: Tive uma crise de vesícula no começo da semana e só agora estou começando a me recuperar. É uma pena que tenhamos tido esse contratempo logo no início do Blog, mas em breve compensarei a segunda e a terça feira.)
Música: Don´t take your guns to town
Artista: Johnny Cash
A young cowboy named Billy Joe grew restless on the farm
A boy filled with wonderlust who really meant no harm
He changed his clothes and shined his boots
And combed his dark hair down
And his mother cried as he walked out
Don’t take your guns to town son
Leave your guns at home Bill
Don’t take your guns to town
He laughed and kissed his mom
And said your Billy Joe’s a man
I can shoot as quick and straight as anybody can
But I wouldn’t shoot without a cause
I’d gun nobody down
But she cried again as he rode away
Don’t take your guns to town son
Leave your guns at home Bill
Don’t take your guns to town
He sang a song as on he rode
His guns hung at his hips
He rode into a cattle town
A smile upon his lips
He stopped and walked into a bar
And laid his money down
But his mother’s words echoed again
Don’t take your guns to town son
Leave your guns at home Bill
Don’t take your guns to town
He drank his first strong liquor then to calm his shaking hand
And tried to tell himself he had become a man
A dusty cowpoke at his side began to laugh him down
And he heard again his mothers words
Don’t take your guns to town son
Leave your guns at home Bill
Don’t take your guns to town
Filled with rage then
Billy Joe reached for his gun to draw
But the stranger drew his gun and fired
Before he even saw
As Billy Joe fell to the floor
The crowd all gathered ’round
And wondered at his final words
Don’t take your guns to town son
Leave your guns at home Bill
Don’t take your guns to town