“Lembro que na época (88-89) eu via RD dar pau em 7galo na arrancada, fácil fácil (na saída, depois a galo buscava, mas até aí já se passaram uns 800 metros pelo menos). Eu morava na Penha, e a mulecada ia pra Radial Leste entre as estações Belém e Bresser do metrô, e ali o couro comia (não existiam radares, e a polícia quase não aparecia). Era impossível pra qualquer moto da época, partindo do Belém, pegar a RD antes da Bresser. Bons tempos.”
Carlão Joken
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Na década de 70 e 80 o mercado de motos era bem diferente do que conhecemos hoje. Não haviam motos Xing Ling de qualidade duvidosa e moto era coisa de maluco, não de quem queria um transporte barato e fácil. Sobre marcas, Havia a Honda, a Honda, a Honda de novo e pra uns poucos loucos que não se importavam em ficar cheirando a fumaça (e ás vezes até gostavam do cheiro) havia a Yamaha com suas motos 2 tempos de temperamento explosivo que aceleravam loucamente e deixavam um rastro de óleo fedido na cara de quemficava pra trás (coisa bem frequente).
Os motores 2 tempos ficaram na lembrança de muita gente e hoje em dia ainda equipam motos de competição. Os motivos para isso são vários. O primeiro deles é que os motores 2 tempos são mais simples, leves e potentes do que um motor 4 tempos da mesma cilindrada. O segundo é o comportamento explosivo desses motores, que demoram para “acordar” e em altos giros despejam toda a sua potência de uma vez.
A moto 2 tempos mais famosa da Yamaha no Brasil com certeza foi a RD-350. Uma motinha pequena, leve, com um motor 2 tempos de 2 cilindros refrigerado a líquido. Rendiam 55 cv a 9000 RPM, a maior parte dessa potência a partir dos 6000 RPM, quando o motor acordava igual a uma fera desembestada e o velocímetro subia rumo aos 200 km/h, velocidade final da bandida. E isso numa moto de 1986 com pouco mais de 160 kg. Fazia muito marmanjo borrar as calças. Por conta do número de pessoas que morreram abusando em cima dessesse canhão (que nos anos 70 não tinham freios nem quadro suficientes para segurar a potência), a moto foi carinhosamente batizada de “viúva negra”.
Isso tudo é lindo, mas foi o que havia ouvido falar dos outros.
Pois bem. No final de semana passado tive a oportunidade de experimentar do veneno da Viúva.

A cobaia foi uma RD 350R 92, já com faróis duplos e, literalmente, toda negra. A mais bonita já lançada, na minha opinião (igual a foto acima). O dono é um amigo meu que é apaixonado em RDs e possui somente TRÊS delas.
Somos do mesmo grupo de RPG (sim, com 23 anos e curso superior completo eu jogo RPG até hoje!) e o cara ficou de ir com a moto num dos jogos para que eu a visse. Nos encontramos no Venâncio 2000, ponto costumaz de jogadores de RPG em Brasília, e lá estava a viúva. Pedi somente pra subir e ver a posição de pilotagem. O cara simplesmente colocou a chave, ligou a moto e disse “Só não se mata!”

Imediatamente comecei a tremer. “car@%$~, vou acelerar a viúva! Nem acredito!”. E quando subi na porra da moto nunca senti o peso de um nome tão forte.
Respirei fundo, “vamos lá”, pensei. Como a moto é carenada, a primeira coisa que estranhei foi eu virando para os lados e a frente da moto permanecendo no lugar, mas nada de mais. Duas curvas depois eu já tinha acostumado. Outra coisa é a posição de pilotagem, 100% racing. Os pés encolhidos e as mãos lá na frente. Fiquei parecendo um frango assado em cima da moto, mas um frango assado feliz.
Primeiro uma passada tranquila, esticando até 5000 RPM pra esquentar o motor e conhecer a moto. Passei pela frente do Pátio Brasil e subi pelo Assis Chateaubriand, acelerando a moto no sinal para esquentar o motor e fazendo o óleo 2 tempos subir. Surpresa: Mesmo sendo uma moto com quase 18 anos a boa e velha ciclística Yamaha se faz presente. Comecei a me sentir em casa, mas o nome VIÚVA NEGRA ainda pairava sobre minha cabeça.
Depois uma passadinha passando dos 6000 pra conhecer a arrancada quando a moto, nas palavras dos mecânicos Yamaha dos anos 90, “abre o Y”. Motor devidamente quente, puxada no acelerador: PUTAQUEPARIU! A rotação sobe loucamente e a moto dá uma estilingada BRABA! Impressionante como o povo baba, os carros abrem espaço…. Não é assim com a minha Fazer mirradinha…. Desacelerei quando a moto já estava a 100 km/h, isso depois de 7 ou 8 segundos de arrancada, sem sair com giro alto…
Na hora de parar, uma surpresa: Os freios funcionam SIM. O que não tem mesmo é freio motor. Isso se confirma. Mais umas freiadas e eu me acostumei com esse fato, eu acho…. Essa é uma das características do motor 2 tempos que matou muita gente.
Parei a moto e o gentil dono dava risada da minha cara de felicidade. Mal sabia eu que a viúva ainda sequer tinha mostrado as garras.
Saindo do jogo fomos a um cachorro quente na 513 norte. A barraquinha fica no final de uma rua de aproximadamente 500m. Lugar deserto, Asfalto bom, sentido único, nenhuma entrada ou saída de carros… O dono, meio virado das idéias, me entregou a chave e disse: “vai até o final da reta tranquilo porque é contramão. Na volta enrola o cabo e dá uma volta direito nessa moto!” Pense numa criança feliz.
Na primeira passada não foi nada demais. dei uma brutalizada básica e estiquei até segunda marcha. parei bem antes pra conhecer os famosos freios da RD. A essa altura eu já estava meio que suando frio. “caralho, tanta gente morreu em cima dessa merda! Olha o que eu tô fazendo! 100 por hora numa retinha minúscula dessa! Eu sou louco……. Putaquepariu, QUE MOTO FODA!”… A RD sempre foi conhecida por um comportamento dinâmico nada exemplar. Shimmys, kick back, pneus que não passam confiança, quadro fraco demais pra potência do motor…. tudo isso ela tem. Menos do que a irmã dos anos 70, mas tem, e já matou muita gente!
Só que como os parafusos do papai aqui ficaram na linha de montagem, olhei pro final da rua de novo, abri um sorriso de orelha a orelha e voltei até o final da rua, torcendo pra nenhum morador chamar a polícia.
Nova passada. Acelerei a moto. O cheiro do óleo 2T subiu. Aquela porra parece que faz você perder o juízo. “Foda-se o medo da viúva!”, pensei. Acalerei até 6000 RPM, faixa em que o ronco do motor passa de um zumbido de abelha pra um grito descontrolado. soltei a embreagem e a frente da moto subiu imediatamente. Deixei o pau quebrar.;
Só lembro do mundo fechando num cone, dos socos na troca de marcha com a agulha indo até os 10000 RPM e o velocímetro subindo até 140 por hora em uns poucos segundos. Não deu tempo de esticar a terceira marcha e a rua já tinha acabado. Freiei com tudo e percebi que a coisa toda tinha demorado uns 15 segundos no máximo.
Parei no final da reta, tirei o capacete, fiquei olhando abestalhado pra moto.
O dono, que me seguiu com a Fazer (óbvio que ficou pra trás) parou do lado e gargalhando gritou “E aí, batizado com o perfuminho dos 2T? que que achou?”
Dizem que você sabe quando o cara gosta da moto se ele desce dela sem falar nada, ou então tremendo.
Desci tremendo igual vara verde, olhei pra cara dele e só consegui dizer “Cara…. EU QUERO UMA RD!”
O cara cai na gargalhada, me dá um abraço apertado e diz: “BEM VINDO AO CLUBE!!!”
A moto em marcha lenta continuava lá. sem embolar, soltando um ronco grave e nervoso, como se implorasse pra ir de novo.
Senti aquela vontade doida de voltar pro final da reta e o resto da sanidade que eu tinha ir pra casa do caralho. Nessa hora foi que descobri porque essa moto virou lenda.
Hoje em dia as motos esportivas possuem, em média, 170 kg e 180 cv. Mais que o triplo da viúva.. Mas poucas passam a mesma emoção e adrenalina que a RD é capaz de passar. O comportamento arisco, a posição, o cheiro de óleo 2t, o ronco, o apelido, tudo parece conspirar para que você perca o juízo.
Saí de lá com a sensação de ter vivido uma lenda, e com o bolso coçando, doido pra ter 6000 reais pra dar numa moto velha, ultrapassada, perigosa e que é um ralo de dinheiro (manutenção de motor 2t é cara e constante). Mas eu juro: Se eu tivesse essa grana gastaria sem pensar duas vezes.
Pra finalizar, o texto de um amigo, Carlão Joken, sobre a RD-350.
RD. O Mito.
“O grande problema dessa moto, na época dela, é que o pessoal tava acostumado com as cbzonas, que apesar de acelerar bem, eram bem tranquilas. Aí me chega essa danada, a mulecada endoidou com a aceleração brutal ao abrir o YPVS. E convenhamos, o freio dela é bom sim, mas não é nenhuma maravilha, aliado ao fato de não ter freio motor (nenhuma 2 T tem, é característica delas).
Então imagine: a mulecada acostumada com as CBs da vida, ou a 7 galo (CBX750F), que aceleravam bem (a galo MUITO bem), mas tinham muito freio e o freio motor pra ajudar, além da ciclistica melhor; aí me chega essa diaba com muuuito motor, levíssima e freio “razoavel”, além da falta de estabilidade nas curvas de alta (aqueles pneuzinhos 120 na traseira não convencem…). Tava dada a fórmula da matança. Os caras se arrebentavam mesmo.]
Mas é uma moto que, nas mãos de quem sabe o que tá fazendo, dá show. Lembro que na época (88-89) eu via RD dar pau em 7galo na arrancada, fácil fácil (na saída, depois a galo buscava, mas até aí já se passaram uns 800 metros pelo menos). Eu morava na Penha, e a mulecada ia pra Radial Leste entre as estações Belém e Bresser do metrô, e ali o couro comia (não existiam radares, e a polícia quase não aparecia). Era impossível pra qualquer moto da época, partindo do Belém, pegar a RD antes da Bresser. Bons tempos.”