Susan Boyle – Catarse coletiva.

Todo mundo já assistiu ao vídeo da Susan Boyle na Internet na nova versão do Britain´s got talent, um programa de calouros no mesmo molde do “america´s got talent americano, ambos os programas criados e dirigidos pelo conhecido crítico, produtor, executivo da gravadora BMG e filho da puta Simon Dowell.

Resumindo a história, a moça é feia, estranha e não parece cantar bem nem em sonho. Daí chega lá, desacreditada por todo mundo, inclusive pelos jurados (O Simon então…..) e “arrebenta” cantando a música “i dreamed a dream” do musical Les Miserables.

Quando percebi no que isso ia dar, lembrei imediatamente de uma cena que tinha visto mais ou menos há um ano atrás na primeira versão do programa, quando o Paul Potts, outro cara meio torto, chegou no programa dizendo que cantaria a ária “nessun dorma” da ópera Turandot, de Puccini. Todo mundo olhou pra ele com a mesma cara de “putaquepariu, lá vem merda”. Inclusive eu.

Quando assisti o Potts confesso que me emocionei a princípio. Nos dizeres do blogueiro Álvaro Augusto, http://alvaroaugusto.blogspot.com/2007/08/senhoras-e-senhores-o-grande-paul-potts.htm) fui atingido pelo efeito puccini. Infelizmente depois acabei tendo que ceder ao olhar crítico e confessar que fui manipulado.

Quando assisti à Senhora Susan entrando no palco também fis cara de “Lá vem merda”. Só que por outro motivo. E dessa vez deu merda. Logo nos primeiros versos minha cara piorou, pois da última vez os diretores do programa mandaram bem melhor.

Paul Potts não é nenhum Carreras, mas tem seu mérito. Cantar ópera não é NADA fácil. A vida de um tenor profissional é duríssima, cheia de privações e de treino constante. Não é nada fácio MESMO. Já um musical não tem a mesma dificuldade e as linhas vocais são bem mais fáceis, justamente porque no início os atores dos musicais eram mais atores mesmo. Não eram grandes cantores, e os compositores sabiam que não podiam exigir muito. E Susan Boyle…  Já conheci não foram um ou dois cantores que cantam muito, muito, MUITO melhor.

Tudo bem. Ela canta mais ou menos (Bem mais ou menos). Mas será que a gente tem que se contentar com o “mais ou menos”? Com a mediocridade? Será que música tem que ser mesmo aquela coisa que a gente ouve pra passar o tempo? Nâo merece ser olhada com um pouco mais de profundidade?

Eu sempre fui fã de musicais da broadway (les miserables é o musical de tempo recorde em cartaz por lá. Mais de 23 anos ininterruptos.) e acho que quem vai cantar um negócio da magnitude de “i dreamed a dream” em cadeia nacional tem que ter um certo nível que a senhora em questão não tem (até porque hoje em dia o nível dos cantores da broadway subiu muito e musicais viraram obras de quase tanto respeito do ponto de vista técnico como uma ópera). E não é muito difícil notar isso quando se vê a Lea Salonga, uma das vozes mais respeitadas da Broadway, cantando a mesma música. E ela não só canta. Também interpreta e dança. é uma artista completa, como uma atriz da broadway deve ser.

Infelizmente não dá pra comparar. A Lea Salonga, também uma das atrizes principais do musical Miss Saigon, parafraseando Álvaro Augusto, é uma profissional. E não dá mole pra ninguém. Não dá pra comparar o timbre, a técnica e a potência da voz dela com a Susan Boyle. E pra quem gosta daquele velho papo “ah, mas música não é só técnica”, sinto muito. Não dá pra comparar a expressão também. E olha que a baixinha aí não tem um diretor pra editar as imagens e fazer tudo parecer linda. Conta só com o próprio talento. Alguém procure no Youtube o vídeo da primeira audição dela pra Miss Saigon. A guria senta do lado doClaude-Michel Schonberg, criador do musical, e canta como se tivesse na sala de casa. Competência pura.

O ponto é: A maioria das pessoas não sabem olhar as coisas de um ponto de vista crítico, e isso não é estranho. Todos nós somos guiados pela emoção. Acontece que ser crítico é necessário, pois nem sempre a versão da história que nos contam no intuito de nos fazer pensar ou sentir algo é a versão real. Tanto o Potts como a Susan Boyle não começaram a cantar ontem, como o programa sugere. O Potts tentou ser aceito em vários conservatórios e a Susan também procurou seu lugar ao sol na indústria da música. Basta procurar alguma coisa deles antes da fama. Eu encontrei. Outro ponto: O Simon Dowell da televisão é um personagem. Se ele fosse assim na vida real nunca teria comido ninguém de tão chato. Além do mais, o cara é um executivo de uma gravadora e é diretor do programa. De trouxa ele não tem nada.

Também acho que as pessoas merecem ser reconhecidas pelo trabalho delas. Só isso gera respeito. E ser reconhecido não pelo seu talento, mas sim por ser feio, gordo, estranho ou ter cara de bobo, e por isso as pessoas te sentirem obrigadas a te dar uma chance, não é respeito. É pena. É compactuar com a ditadura da imagem e do superficial que essa mesma mídia que apresenta a senhora Susan Boyle criou.

Quando digo isso todo mundo me chama de chato, pedante, etc. Concordo que muito crítico por aí fala demais. Mas não sou nenhum crítico. Sou músico, participo de uma banda e sei como é duro encontrar até mesmo um lugar pra tocar. O mundo da música é concorridíssimo e mesmo ser muito bom não é garantia de sucesso. Conheço vários artistas tão bons que dá dor no coração de ver os caras sem fazer sucesso. Infelizmente essa é a vida real.

Por isso fico tão chateado quando vejo gente que não merece tendo uma exposição exagerada. E o pior: fazendo parte de um circo. Na primeira edição do programa eu até conseguia ver uma certa naturalidade. Nessa dá pra ver claramente que tudo foi engendrado pra causar o mesmo efeito do vídeo do Potts.

A senhora em questão está sendo usada pela indústria fonográfica pra amealhar uma grana extra (afinal de contas as gravadoras têm que dar um jeito de não ir pro buraco de vez). E ela é mesmo muito inocente se não sacou isso ainda.

No dia do trabalhador, nada é mais justo do que reconhecer o trabalho de que merece.

~ por thevisionaire em Maio 1, 2009.

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