De frente pro crime, A.K.A. circo de horrores

As pesquisas mais avançadas em neurociência revelaram que nosso cérebro não é um órgão no sentido puro da palavra, mas sim um emaranhado de órgãos, cada um deles com funções bastante específicas. E cada um desses órgãos se desenvolveu em momentos diferentes da evolução humana, nos quais as habilidades importantes para a sobrevivência eram diferentes.

Assim, possuímos campos cerebrais específicos e independentes. Uns são responsáveis pela fala, enquanto outros são responsáveis pelo pensamento abstrato, outros pela locomoção e equilíbrio, outros pelas emoções, outros pelo raciocínio lógico, etc.

Existe uma parte do cérebro chamada sistema límbico (considerada primitiva, pois teria se desenvolvido ainda no período paleolítico) que é responsável pela construção das emoções e pelos reflexos físicos do corpo a estímulos emocionais externos.  Partes do sistema límbico são responsáveis, dentre outras funções, pela construção de nossas respostas reativas e instintivas a perigos iminentes.

Áreas do sistema límbico como a amígdala e o hipocampo liberam no sangue, diante de uma situação de perigo ou de ameaça à integridade física, hormônios como a adrenalina e o cortisol  Esses hormônios aceleram os batimentos cardíacos, tensionam os músculos, aumentam a frequência respiratória e nos deixam em estado de alerta imediato, prontos para as duas reações mais básicas do ser humano diante do perigo: Fugir ou lutar.

Uma das funções do sistema límbico é a memória empírica emocional (MEE). Basicamente ela guarda no arquivo todas as experiências emocionais a estímulos externos, e os classifica como estímulos desejáveis ou evitáveis.

A MEE é um dos bancos de dados mais importantes do cérebro, e também para a nossa vida diária. Ela estimula as áreas progressistas de nosso cérebro, como o córtex pré-frontal, a raciocinar melhores maneiras de se alcançar objetivos ligados profundamente a emoções fortes.

Em outras palavras, das lembranças que estão lá depende a nossa capacidade de gerar motivação para correr atrás do que é importante pra nós. Quando ligamos através da MEE nossos objetivos a valores e conceitos emocionalmente importantes pra nós, nossas áreas progressistas do cérebro serão constantemente estimuladas a trabalhar na resolução de problemas e na criação de idéias que nos movem em direção a estes objetivos.

Mas a MEE também alimenta áreas hiper reativas como a amígdala cerebral, que está sempre procurando novas situações de perigo e maquinando o tempo inteiro todos os riscos e possibilidades mais prejudiciais diante de situações diversas.

A amígdala é a área do nosso cérebro ligada à proteção e prevenção. Nos faz considerar a pior possibilidade, o maior perigo, e nos dá motivo para ficar em casa ao invés de sair, de nos retrairmos ao invés de tentarmos algo diferente, a buscarmos estabilidade ao invés de mudança, a nos agarrarmos aos objetivos já conquistados ao invés de arriscar em novas aspirações.

E isso explica bem o porquê da nossa querida amígdala gostar tanto de televisão.

Se sintonizarmos o noticiário nesse exato momento, seremos bombardeados de todo tipo de desastre natural, violência gratuita, notícias escabrosas e coisas que deram errado mesmo em situações improváveis. E nosso cérebro faz um “log” de todas essas situações, enquanto as áreas reativas maquinam nossa virtual reação diante daquele estímulo.

Infelizmente para nós, como o sistema límbico é uma área primitiva do cérebro, treinada para nos ajudar em confrontos com animais selvagens e forças da natureza, ele não possui a prerrogativa de ser muito perspicaz. Basicamente, ele só possui aquelas duas respostas (fugir ou lutar) a todas as situações potencialmente ameaçadoras que consegue perceber, seja ela a repentina aparição de um jaguar por trás da ravina ou a iminência de subir num palco para iniciar um discurso.

Os estudos neurológicos mais recentes mostram que nosso mundo evoluiu mais rápido em complexidade e quantidade situações do que a capacidade de evolução de nossas áreas cerebrais mais primitivas. Elas não sabem diferenciar um elefante furioso vindo em nossa direção de uma garota linda nos dando mole ( garota esta que, obviamente, é demais pro nosso bico e é vista pela amígdala cerebral como uma linda probabilidade de receber um fora, coisa esta indesejável e evitável, como já lembrou previamente a MEE).

Quando essas áreas reativas estão super estimuladas entendem toda e qualquer situação como potencialmente danosa. E quando a situação não o é, a adrenalina e o cortisol se acumulam em nossa corrente sanguínea, criando um estado constante de tensão não liberada que massacra o corpo, bagunça o metabolismo (gerando um consequente ganho de peso) e cria uma série de radicais livres que no futuro serão a causa de aparecimento do câncer que você terá para chamar de seu.

O mundo moderno conhece esse estado como “stress”, uma das maiores causa de mortes prematuras e de doenças de que se tem notícia.

E não é só isso. Ao entrar em funcionamento, as áreas reativas do hipocampo suprimem e “desligam” funções mais sofisticadas oriundas do córtex cerebral, como a abstração e o raciocínio. É óbvio. Ninguém vai pensar em pintar um quadro ou ler um tratado de filosofia se o corpo está se preparando para correr como se um leão furioso viesse na direção dele.

E como as áreas do cérebro possuem a capacidade de se desenvolver com o uso e de atrofiar com o desuso (sim, igualzinho a um músculo), o estímulo exacerbado das áreas reativas faz com que a pessoa se torne cada vez menos imaginativa, criativa, impetuosa e cada vez mais conformada, medrosa e inerte.

É muito revoltante como a tragédia na escola de Realengo está tomando os noticiários já há quase uma semana. As pessoas simplesmente não cansam de falar disso. Primeiro trataram de dizer como foi o episódio passo a passo, do planejamento até a execução. Rolou até gráfico mostrando por qual escada o assassino subiu, com quem falou, em quem atirou primeiro, etc. Depois a imprensa traçou um perfil de todas as vítimas e familiares (inclusive filmando os velórios das crianças, com direito a desmaios dos pais. Um absurdo).

E aí vem a parte mais desoladora: Resolveram que era importante criar um perfil psicológico do assassino. E tome “especialista” na televisão falando com muita propriedade sobre coisas que não entende. Primeiro o rapaz era fruto do meio. Depois sofreu Bullying. Aí inventaram que ele era um fanático religioso. Especularam se ele teve treinamento militar ou não (como se atirar em crianças indefesas fosse algo muito difícil…).

Apesar de entender, pelos motivos que já citei, o porquê desse tipo de tragédia causar tanto prazer nas pessoas ao ser comentada (sim, prazer, e um prazer muito primal), não consigo me conformar com imprensa filmando velório de criança! Caralho, cadê o respeito à dor dos envolvidos?

Não aguento mais ouvir falar desse cara, por um motivo muito simples: Essas teorias malucas sobre ele são inúteis. Ele é só um suicida covarde. E como a televisão não noticia suicídios, o cara deu um jeito de aparecer. De chamar a atenção do mundo inteiro de uma vez.

É um covarde porque não conseguiu se matar sozinho. É um covarde porque matou um monte de crianças. É um covarde porque quando foi confrontado por um policial treinado fugiu do conflito cometendo o tão sonhado suicídio. É um covarde porque jogou em cima de outras pessoas toda a responsabilidade do que fez. É um covarde porque foi incapaz de enfrentar a vida como ela é e achou melhor viver dentro do próprio mundinho.

É só isso que ele é: Um covarde que procurou a saída mais fácil que existe. Não é um psicopata. Psicopatas não se matam. Psicopatas não chamam atenção para si. Pelamordedeus. Parem de ficar falando desse crápula, porque o que ele queria era exatamente isso: Atenção. Aparecer. Ser comentado.

E autoridades, pelo bem da democracia e da sua própria imagem, parem de querer se aproveitar politicamente dessa tragédia. Como se as famílias já não estivessem sofrendo o suficiente.

E pessoal, pelamordedeus, vamos assistir menos televisão. O medidor de stress agradece.

Pra refletir, segue a letra da música de João Bosco que dá nome a esse post. Descreve perfeitamente a reação popular ao episódio. Segue também o link no youtube pra quem quiser ouvir.

Abraços a todos, na esperança de um dia conseguirmos ser menos primitivos.

http://www.youtube.com/watch?v=2jRbt_x6Uj8

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém…

O bar mais perto
Depressa lotou
Malandro junto
Com trabalhador
Um homem subiu
Na mesa do bar
E fez discurso
Prá vereador…

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então…

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém…

Sem pressa foi cada um
Pro seu lado
Pensando numa mulher
Ou no time
Olhei o corpo no chão
E fechei
Minha janela
De frente pro crime…

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então…

Tá lá o corpo
Estendido no chão…

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Sobre thevisionaire

Just a wanderer with a vision.
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4 respostas a De frente pro crime, A.K.A. circo de horrores

  1. Mr. Black diz:

    As pessoas sempre preferem curtir devagar o espetáculo da miséria humana, mas se esquecem de que as pessoas se tornam o que as outras pessoas fazem delas. Evidentemente existem as exceções, os übermenschen, as pessoas que simplesmente transcendem, mas esse sonho midiático e capitalista de possibilidade é uma babaquice.

    Pra citar Clube da Luta: “We’ve all been raised on television to believe that one day we’d all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won’t. And we’re slowly learning that fact. And we’re very, very pissed off”.

    A verdade é que a maldita TV é uma coisa que só fala e só fala o que quer, e por isso mesmo as pessoas já deviam desconfiar. E outra verdade é que esse grande atirador, barbudo e perturbado, é tão vítima quanto qualquer outro. As crianças foram mortas por ele e ele pagou o preço da merda que fez, mas quem é que pagou o preço por tudo que ele passou? E o custo de omissão? Minha avó diz que se você tem o potencial pra consertar ou pra evitar e não o faz, é tão responsável pelos resultados negativos quanto quem fez a cagada.

    T.S. Eliot escreveu, certa vez: “Half of the harm that is done in this world is due to people who want to feel important. They don’t mean to do harm. But the harm does not interest them”. As pessoas que querem se sentir importantes fazem muito mal às pessoas, mas muito disse vem das que gastaram seu tempo diminuindo essas pessoas.

  2. isoca diz:

    Quero começar, pedindo desculpas por cobrar um texto e sumir, minha vida teve de pernas para o ar, fiz uns trabalhos loucos que só me dava tempo para dormir e pouco, inclusive e agora enfim, as coisas estão entrando nos eixos, enfim…desculpa!

    Má que valeu a pena cobrar, aaah, valeu!

    Eu não assisto TV, cortei, completamente.
    Quando quero ver uma série, eu baixo, um filme, eu baixo, ler noticias, vejo em sites, jornais. Compro, alugo livros, revistas e assim segue a vida. Mas TV, nananinanão, até a guerra no Rio, vi via internet.
    Fico sabendo de algo quando minha mãe vem correndo abismada me contar, e ela participa daquele sensacionalismo todo, que é ficar curtindo a dor dos outros.
    Eu já tinha notado esse prazer estranho, dá pra ver nas coisas mais banais, conte que vc tá feliz e veja 3 amigos te dando atenção, no maximo, faça cara de merda e conte que vc tá fudido por algo e pronto, curiosidade de todos.

    Eu penso que se minha atenção não vai diminuir a tragédia, então não vou da-la. Se falar algo, não contribui para melhorar, fico em silencio. E eu vejo MUITA falta de respeito por aí, muita hipocrisia e aí, isso é tão cansativo, cuidar da nossa própria vida já dá tanto trabalho, imagina viver para desgraça alheia…

    beijoca

  3. isoca diz:

    Andei fazendo propaganda daqui, espero que não se incomode: http://twitter.com/#!/IsisMaia/status/62364323204431872

    • thevisionaire diz:

      Isis, desculpe pela demora em responder. Minha vida está de pernas pro ar, mas mesmo atrasado agradeço a divulgação! Fico muito feliz que tenha achado um cantinho aqui que te agrade!

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