Caminhos – parte 1 – 100 escovadas antes de sair

– Às oito? Ok. Vamos juntos. Eu deixo o carro aí e a gente vai no seu. Tô meio sem saco pra dirigir. Eu deixei meu ingresso com você? Não? Merda… Tá bom. Vou procurar aqui. Deixa eu ir me arrumar senão chego atrasada. Até mais tarde.

Ana Flávia desligou o telefone. Procurou na bolsa o ingresso do show. Revirou carteiras e agendas até encontrá-lo, no meio de alguns papéis do trabalho. A roupa já estava separada. Uma saia curta, botas, uma blusa larga e uma jaqueta pra caso sentisse frio. Tudo combinando. Ela poderia perder tudo, mas a vaidade e o senso de cuidado consigo mesma jamais.

Ela era assim. Orgulhosa de si mesma, de seus valores e de seus caminhos. Se orgulhava ter vencido tantas adversidades na vida e de estar ali, seguindo e ficando sempre mais bonita, mais inteligente e mais rica. Nada era desculpa para não cuidar de si mesma, para se olhar no espelho e não gostar do que via, dentro e fora. E se tinha algo que havia lhe dado forças para passar por mais aquele inferno, era isso.

Tomou banho devagar, pensativa, fitando as gotas d’água descerem pelo azulejo da parede. Gostava da banda que iria tocar naquela noite, mas estranhamente não tinha o menor ânimo nem a menor paciência pra sair de casa. Virou-se na direção do box embaçado, como se esperasse ver sua imagem ali refletida.

A água quente era reconfortante, mas algo dentro dela não se aquietava. Já estava assim há meses. Como era uma pessoa orgulhosa das auto-análises sempre bem acertadas, sabia bem o que era. Não era isso que a incomodava, mas a total falta de perspectiva sobre o problema.

Já há alguns meses ela tinha terminado um relacionamento. Aliás, terminado não. Não era essa a palavra. O relacionamento tinha desmoronado, em meio a brigas, erros e feridas. Os dois simplesmente não se entendiam mais sobre a vida. Ela sempre ativa, correndo atrás de tudo ao mesmo tempo, e ele acomodado, apático.

Flávia não se enganava. Sabia há muito tempo que aquele namoro já tinha dado o que tinha que dar, e o tempo só contribuiu pra deixar isso mais óbvio. O que doía era que não precisava ser assim. As coisas não precisavam ter se alongado tanto, coisas não precisavam ter sido ditas ou feitas. E ela sabia e admitia que grande parte dessa culpa era dela. Se não tivesse sido às vezes tão cabeça dura talvez os dois tivessem saído menos machucados daquela história. Ela, que não gostava de machucar as pessoas, tinha machucado demais. Os seus defeitos se revelaram navalhas que podiam cortar muito mais fundo do que ela imaginava e gostaria. E agora usava grande parte do seu tempo digerindo aquela culpa e sobre que tipo de pessoa ela realmente era.

A outra parte do tempo pensava no futuro, e ele não era nada animador. Refletia sobre que tipo de relacionamento que queria pra si agora. Não era o joguinho bobo que via entre os casais por aí, ou a falta de cumplicidade que notava entre os casais que conhecia. Ela era melhor do que isso. E por isso sentia falta de um companheiro de verdade, alguém com quem realmente sentisse estar caminhando lado a lado, sem medo de ser abandonada no meo do caminho. Era algo que ela nunca havia vivido, nem conhecia alguém que tivesse. E de repente, por conta disso, chegara à conclusão que isso com certeza não existia, ou, se existia, não era pra ela.

Saiu do chuveiro e foi pro quarto. No computador tocava Chico Buarque e Oswaldo Montenegro. Boa música. Disso ela nunca abria mão. Boa música, boa comida, boa leitura e boa companhia. A vida era pra ser bem vivida. Se não fosse assim não valia a pena. Enquanto a música tocava ela vestiu-se lentamente e postou-se à frente do espelho, escovando seus longos cabelos loiros. Maquiou-se cuidadosamente. Sobrancelhas bem feitas ressaltando seus olhos castanhos, maquiagem clara e discreta para não apagar os traços harmônicos e perfeitos de seu rosto, um batom vermelho sutil e unhas cuidadosamente pintadas de creme cintilante. Passou a mão pelo seu corpo. Parou em sua cintura e a apertou levemente, marcando seu belo quadril. Estava linda, e era assim que se conhecia e que era: Bonita, feminina, sorridente e encantadora.

Estava satisfeita, mas ainda pensativa. Se aquilo com que sempre sonhou não existia, se era muito pedir alguém que amasse a vida com tanta intensidade quanto ela a ponto de querer vivê-la plenamente, então o que iria fazer? Não era da sua vocação ficar sozinha, e também não era do seu feitio abandonar seus valores, se submeter ao mundo ou ao status quo. Já tinha feito lá seus planos para sobreviver a um relacionamento meia-boca, mas nenhum deles era bom o suficiente. Nenhum a fazia suficientemente feliz. E se não a fazia feliz, não servia.

Mas resolveu deixar aqueles pensamentos de lado por hora. A lua brilhava bonita no céu, o que era sempre sinal de bons presságios. Além do mais, não havia nada que ela pudesse fazer naquele momento, pois havia prometido a si mesma passar um longo tempo sozinha, “cuidando do seu jardim”, como dizia uma música que ela gostava muito e estava ouvindo bastante. Se o mundo não fosse bom, ela ainda teria ela mesma do lado. Era a única certeza que podia ter.

Pegou a sua jaqueta, deu partida no carro e saiu.  Agarrou-se com força em sua solidão e resolveu que teria uma noite divertida e alegre ao lado de seus amigos, e não se importava que ela insistisse parecer cada vez mais escura e fria. De um jeito ou de outro a vida dela seria aquilo que ela sempre sonhou que fosse, feliz e bem vivida. E se não encontrasse um caminho pra isso, abriria um.

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Sobre thevisionaire

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2 respostas a Caminhos – parte 1 – 100 escovadas antes de sair

  1. ana carolina diz:

    Mulheres já sofrem nessa vida…rsrsrsrsrs… Já comentaria minha companha!!!! No entanto permanecem de pé… cada vez mais bonitas, mais inteligentes e mais ricas!!!!
    Ana Flávia é assim, mulher no sentido pleno na palavra, mesmo tendo inseguranças de jovem e sistematissidades de anciã…
    A final contas a lua estava linda, refletida no rosto de uma mulher…. o que mais se pode esperar de uma noite assim… apenas perfeição… força, vigor, luz e fluidez…

  2. Bia diz:

    ANA ESTA COMEÇANDO. Apaixonado pela aventura, procura sempre explorar novos caminhos.Novos nomes, novos delirios. esta bastante ativa,.Ela se mostra que sua forma de agir,quando criança chamava a atenção por sua impaciência,misturada com carência e inconformismo e dificuldade em aceitar limites. Muito inteligente, curiosa en seu talentoso modo de se expressar em palavras escrita e falada, é especialmente entusiasmada e saber que atrás de Ana Flávia a uma armadura, muitas vezes para se viver o hoje, e não se preocupando muito com o amanhã.Ela que aventura e novidade, mesmo que impondo-se de forma rasgada e até dolorida.

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