Caminhos – Parte 2 – A road made of dreams

O chão corria debaixo dos pés de Fernando. O olhar fixo à frente calculava cada espaço, previa cada movimento e identificava cada situação perigosa. O fluxo de informações em sua mente se traduziam em respostas rápidas no guidom, no acelerador e nos freios. O vento frio parecia cortar a pele, o que, estranhamente, o fazia se sentir um pouco mais vivo.

Se olhou no retrovisor da moto. Pele morena, bem diferente das carinhas de menino chorão dos playboyzinhos da faculdade, sobrancelhas grossas, nariz aquilino, olhar firme e altivo, um pouco agressivo, cara “de vilão de filme mexicano”, como diziam alguns amigos. Cabelo preto penteado pra trás, amarrado num rabo de cavalo. Jaqueta de couro preta reluzente. Adorava esse visual. Era assim que um homem devia transparecer. Forte e confiante.

Parou no lugar de sempre. A orla do lago da cidade, virada exatamente para a ponte. Fitou longamente as luzes dos carros passando rápido, contrastando coim o escuro da noite. Uma visão que sempre o agradava. Sentiu os músculos totalmente relaxados, a sensação do mundo passar mais devagar. O olhar perdido. Exatamente como se sentia depois de alguns minutos pilotando.

Era exatamente a contraditória sensação de tanta tranquilidade ao fazer algo tão perigoso que o agradava tanto. Não era a adrenalina de correr a trezentos quilômetros por hora desafiando o perigo como muitos “meninos”, nas palavras dele, faziam, mas sim a confiança de estar exposto ao perigo e sair dele ileso, usando somente de sua capacidade e de sua prudência. A cada fechada ou a cada situação de risco dizia pra si mesmo “calma.” “devagar.” “olhe pra frente.” “Há uma saída.”, e então passava pelo perigo sem sustos. Onde os outros caíam, ele se mantinha de pé. O mundo podia desmoronar, mas ele se mantinha tranquilo. Era por isso que gostava de pilotar, e queria continuar fazendo aquilo que gostava por muito tempo.

Acendeu um cigarro e tragou fundo, olhando compenetrado para a brasa. Aquele era um dos resquícios do velho homem, como ele costumava dizer. Já estava pensando em parar de fumar há algum tempo, e sabia que a hora estava chegando, como havia chegado – sabia ele – a hora de mudar várias coisas em sua vida.

Escorou-se em sua moto e ficou ali, fumando e conversando com a noite em silêncio. Já perdera as contas das vezes que fizera aquilo naquele mês, e estava se tornando cada vez mais frequente. Não tinha mais paciência pras saídas noturnas que sempre acabavam em noitadas de rock, gente bêbada e a volta sozinho pra casa. Não tinha mais o menor saco pros encontros do motoclube, farras nas quais sempre sobrava cerveja – algo que não combinava, na sua opinião, com sair de moto – e faltava conversas inteligentes. Estava cansado de cuidar de amigos bêbados enquanto ele sempre cuidava de si mesmo, segurava a própria onda e achava sozinho o caminho de casa sem incomodar ninguém – até porque sabia que não podia contar com ninguém além dele mesmo. Ele sabia bem que não era ali que iria achar o que procurava, mas só agora resolvera encarar isso de frente.

E por isso agora tinha se isolado para refletir sobre que rumos tomaria. Era gostoso curtir de novo a própria companhia depois de tanto tempo. Um prazer que há muito ele esquecera. Mas também era doloroso encarar como havia empurrado a vida com a barriga.

Já havia mudado bastante, era verdade. Sair do mundinho que criara dentro de sua cabeça era difícil, mas estava sendo gostoso. Tinha redescoberto o cara bonito, inteligente e bem sucedido que era. Tinha redescoberto o prazer de tocar seu violão, de pilotar sua motocicleta, se vestir bem, do contato com seus amigos, de agradar quem lhe era querido, de fazer seu trabalho com a competência que só ele sabia fazer. Estava resgatando aquilo que era mais importante pra ele.

Só que uma dor continuava ali. A dor de, por mais que soubesse que aquele relacionamento desde o início tinha sido um erro, viver do lado de uma pessoa e ser tão fechado a ponto de não permitir se mostrar e nem de vê-la como ela era de verdade, mesmo tendo estado naquela situação tanto tempo. A dor de ter que admitir pra si mesmo que, apesar de seu esforço em fazê-la feliz, tinha feito tudo errado. E agora ele entendia que, por mais que suas intenções fossem boas, o que contava era o que ele realmente fazia. E passar a vida reclamando da situação em que está, sem vivê-la de verdade, não o levaria onde ele queria chegar.

Não que lamentasse. Ele não queria mais. Havia acabado. Já havia há muito assumido sua vocação para anjo da guarda, mas não de de alguém que não queria ser ajudado. Só que mesmo assim ele questionava se havia realmente aprendido com os próprios erros. Se estava pronto para fazer alguém feliz, pois sabia que jamais se sentiria completo se não fosse assim. Questionava até mesmo se o relacionamento que sonhava pra si não era mais um fruto dos constantes devaneios de sua personalidade naturalmente introspectiva.

Talvez viver lado a lado fosse aquilo mesmo que estava acostumado a ver. Talvez a pouca idade o fizesse manter certas inocências e esperanças que com o tempo fossem embora. E era mesmo isso que estava acontecendo. Já não esperava mais se sentir tão completo ao lado de alguém como um dia esperou. Também não ia se jogar em qualquer relacionamento pelo medo de ficar sozinho. Não iria repetir os mesmos erros novamente, e se assegurava disso daquela forma: cortando na própria carne as gangrenas que ainda doíam. Se era essa a forma de continuar seguindo, então que fosse. Poruqe uma certeza tinha: Seria sim muito feliz. Talvez não daquela forma que sempre sonhara, mas seria.

Não esperava nada daquela noite. Iria deixar as coisas fluirem e, no final, iria voltar pra casa em sua moto, curtindo o vento frio e deitando em sua cama, apreciando a própria companhia, se assim fosse.

O show já iria começar e tinha marcado com alguns amigos. Subiu na sua moto, confiante na sua maneira de andar. Sem inseguranças a respeito de sua capacidade. Sem medo de errar, sem falta de confiança na sua própria análise. Aquilo tudo o tornara mais forte, E a cada curva, a cada situação de perigo, diria pra si mesmo novamente: “calma.” “devagar.” “olhe pra frente.” “há uma saída.”. E escaparia ileso. Os outros cairiam, e ele estaria ali para ajudar. Ele era forte. Continuaria sempre de pé.

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Sobre thevisionaire

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Uma resposta a Caminhos – Parte 2 – A road made of dreams

  1. ana carolina diz:

    Cuidar do jardim, muitas vezes, significa cortar e retirar muito coisa que na deveria estar ali… e isso definitivamente não é fácil…na verdade quase nunca é….
    Porém é necessário, e o que é necessário baby, não é discutível ou argumentável… Simplesmente é!!! Quando Fernando viu isso as ervas daninhas já haviam crescido tanto que quase sufocou o jardim…. O jardim lindo, vigoroso e espetacular que nem mesmo ele lembra que tinha….
    Porém… após o preparo do jardim… todo dia ou noite é propício para visitas de borboletas….Sobre tudo as noite de Linda Lua cheia….

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