Caminhos – Parte 5 – Refúgio e redenção

Fernando levantou-se, e ao mesmo tempo em que se sentia leve, as pernas pesavam. Quase não acreditava no que Flávia havia lhe dito naquele momento. Quase não acreditava que ela se sentisse daquela forma que dissera quando do lado dele. Quase não acreditava naquela forma em que seus olhos se encontravam. Era tudo bom demais. Perfeito demais. Se maldizia dentro de si mesmo por se sentir acuado pelo fato de que aquela garota era tudo que ele sempre desejara.

Da primeira vez que viu Ana depois do encontro no show ele já sabia o que esperar. Seu coração bateu um pouco mais forte ao cumprimentá-la e abraçá-la. Conversaram como se conhecessem há muito tempo. Ela era inteligente, dona de si, feminina e audaz, ao mesmo tempo em que carregava uma espontaneidade quase infantil. Dizia o que sentia e o que queria sem medo nenhum que os outros a reprovassem ou a questionassem. Ela realmente sabia o que queria.

Tudo para Flávia era intenso. Se não fosse assim, não valia a pena. E ele admirava aquela forma de enxergar o mundo e aquela força. Ao mesmo tempo ela parecia conservar um coração de menina, uma ingenuidade consentida sobre o mundo, embora – ela contou – tivesse passado por tantos problemas. Ela não era fraca ou uma eterna adolescente. Ela era uma mulher forte e decidida, e isso o admirava.

Quando chegou em casa depois daquele que fora o café mais demorado da sua vida, Fernando teve a certeza de que estava apaixonado. E ele poderia ter vários defeitos. Podia ser obtuso, ter dificuldade pra enxergar as coisas de forma ampla, podia ter dificuldades para sair da introspecção que lhe era característica, e por vezes podia agir até de forma bastante egoísta. Mas uma coisa ele carregava dentro de si: Ímpeto. e, por mais que fosse assim, sabia o que queria, e sabia que para alcançar seus objetivos teria que se esforçar para enxergar as coisas como elas eram.

E decidiu pra si mesmo que não cometeria os erros de outrora. Não viveria aquele sentimento pela metade. Não molharia somente os pés na água da praia. Durante muito tempo vivera assim, não se entregando plenamente ao que sentia, e a desculpa era sempre o seu jeito analítico de ver o mundo. Desejava compreender tudo, enxergar as razões maiores por trás de tudo. saber não só os fatos, mas também os porquês. E, pra ele, isso era profundidade.

Mas, apesar de tão analítico, uma verdade ele negou durante muito tempo para si mesmo: A de que não era esse o motivo pelo qual ele nunca havia se entregado totalmente. O maior motivo era o medo. Medo de se comprometer, ou de não ser bom o suficiente, de machucar, ou de se machucar. Era isso que, às duras penas, admitira pra si mesmo.

Só que ele tinha uma vantagem, e sabia disso. A vantagem que possuem todas as pessoas analíticas. Apesar da dificuldade em sintetizar, depois que o faziam compreendiam o todo como poucos. E Fernando havia compreendido. Sabia exatamente o que lhe afligia. Sabia exatamente o que devia fazer para mudar.

E, como todas as pessoas analíticas, ele sabia tomar decisões sem hesitar. Depois de ver aquela garota tão poucas vezes, ele rira da piada do destino, e rira da sua própria certeza. Justamente no momento em que menos desejava, em que menos esperava e que menos achava estar pronto, Ana Flávia havia aparecido. E ele sabia que ela era mais importante para ele do que seus medos, e por isso os deixou de lado. Decidiu que sua mudança seria com ela. Decidiu que daria a ela aquilo que ele havia guardado por tanto tempo e nunca soubera dar a ninguém.

Ele era meticuloso. Planejou os próximos encontros. Planejou como agir. Sem ir com sede demais ao pote, sem fazer cobranças, sem fazer o papel de homem inseguro que acabara de encontrar a mulher perfeita. Deixasse ela dar o tom da dança enquanto ele sutilmente escolhia a música certa para dançar o ritmo certo na hora em que fosse conveniente para os seus planos. Ele sabia fazer aquilo. Sabia seduzir. Saberia fazer com que ela se aproximasse.

Só que quando passou a botar seu plano a cabo Fernando foi surpreendido. Era como se, depois de tanto refletir sobre o que devia fazer para arrumar sua casa, se levantasse de manhã disposto a fazer a faxina e já encontrasse tudo limpo: Tudo aquilo que ele havia planejado e que outrora gastava tanta energia para que acontecesse simplesmente fluía entre os dois naturalmente.

Ele não precisava se esforçar para que as coisas caminhassem num rumo. Ele não precisava se preocupar ou se monitorar. Do lado daquela garota ele se sentia à vontade para ser quem ele era, e ela não fazia cerimônia nenhuma em mostrar a ele que gostava do que via. Ele não precisava se esforçar para convencê-la de que um café com ele seria agradável, nem precisava planejar meticulosamente o lugar onde iriam com o receio de que ela não gostasse. Simplesmente porque ela não parecia se importar com nada mais, desde que estivesse ao lado dele. Todo o esforço que ele julgava ser necessário para fazer outrem feliz era desnecessário. Para ela, bastava simplesmente ele.

E era assim que ele se sentia do lado dela. Não precisava apressar as coisas. Elas aconteceriam naturalmente. E permitia simplesmente desfrutar de sua companhia, de suas conversas, de um café ao lado dela. De uma forma inexplicável ele sentia doçura em sua boca quando ela sorria, lembrava sutilmente de aroma de flores quando tocava suas mãos. E a intensidade daquilo tudo o atordoava.

E a primeira vez em que sugeriu suas intenções foi assim. Nada planejada. Depois de horas dentro do carro, na frente da casa dela, quando ela se despedia, o carro resolveu não ligar. E em meio segundo dentro de sua mente ele amaldiçoou até a sétima geração do destino, pensou todos os impropérios possíveis e teve a certeza de que se tivesse um desejo naquele momento, ele seria uma gilete para cortar os pulsos. Suas mãos suavam enquanto ele tentava ligar o carro. Tentava de todas as formas parecer tranquilo, mas era inútil. Ela percebera. Talvez porque o suor escorrendo de suas têmporas não combinasse muito com sua face aparentemente calma.

Fernando era assim. Quando as coisas saíam do controle ele praticamente surtava. Mas, para sua sorte, ele era bom em retomar as rédeas das situações. Depois de alguns minutos o carro pegou, e ele finalmente soltou a respiração e começou a rir. Ele não teve certeza do que Flávia achara daquilo tudo e da sua reação, pois tinha certeza que ela notara seu nervosismo. Pelo não ou pelo sim, resolveu rir da situação e relaxar. Ela disse que iria entrar, pois estava com sono, e se aproximou para se despedir.

E foi rindo que eles se abraçaram. Talvez por isso Fernando dessa vez tenha sentido aquele abraço mais aconchegante. Talvez por isso o aroma dos cabelos de Ana tenham se tornado mais intenso e sua pele tenha se tornado mais macia e aconchegante. A ponto de Fernando segurá-la mais demoradamente, sem mesmo perceber.

E ele reuniu coragem para fazer algo que há muito queria: Acariciou sua nuca levemente, com a ponta dos dedos; Sentiu o corpo dela estremecer, mas não houve tempo para enxergar muito, pois ela retribuiu o carinho, o que fez com que ele próprio sentisse um calor amolecer seu corpo. Instintivamente ele percorreu a face dela com suas bochechas, aproximando perigosamente seus lábios dos dela.

Foi então que ela o empurrou subitamente, abriu a porta do carro e correu pra dentro de casa. Não demorou mais do que um segundo para isso, mas para Fernando aquele tempo pareceu uma eternidade. Enquanto a via se afastando se sentiu como se tivesse sido nocauteado por um soco nas têmporas. Havia posto tudo a perder com seu ímpeto. Se aproximara cedo demais. Ele sabia que ela estava resistente. Sabia que levaria tempo. E mesmo assim se precipitara. Com certeza ela estava furiosa, ou amedrontada, ou tudo isso ao mesmo tempo. E, naquelas conjunturas, um afastamento daqueles poria tudo a perder. Era isso. Aquele sonho bom acabara ali.

Só que algo fez com que o mundo de Fernando parasse de desmoronar aos seus pés: Antes de entrar em casa ela parou, e se virou. Olhou de dentro de casa diretamente nos olhos de Fernando, e ele vira nos olhos dela uma expressão que até então ela não tinha mostrado. Uma languidez diferente com um toque de remorso. E acenou enquanto sorria timidamente.

Ele acenou de volta e ligou o carro (que dessa vez, graças aos céus, pegou). Percorreu alguns metros e, inexplicavelmente, começou a rir. Rir de si mesmo, daquela situação inusitada, e da sua reação diante dela. E lembrou o quanto era bom isso. Era mesmo hilário como conseguia sentir o prenúncio do apocalipse sobre seus ombros diante de qualquer situação inesperada, para depois concluir que, no final das contas, estava tudo bem. Ela olhara pra trás. Se quisesse realmente se afastar, não olharia.

E ela ligara. Pedira desculpas, e dentro de si Fernando até concordara que a reação dela tinha sido bastante estranha… Mas não conseguia sentir raiva ou qualquer coisa do tipo. Aquilo havia sido tão natural, tão espontâneo, que era simplesmente… lindo. E, se pudesse, ele a agradeceria, pois havia sido aquela reação que tinha feito com que Fernando entendesse a única coisa que faltava.

Ele que era tão meticuloso, planejador e monitor das próprias atitudes, naquela noite, diante daquela situação tão inusitada, compreendeu o que devia fazer: Soltou os remos do barco e fechou os olhos. Permitiu-se fazer algo que jamais pensou ser possível: navegar naquilo que sentia. E descobriu que, há muito tempo, mesmo sem saber, era isso que desejava. Aquele aperto no coração era somente a saudade daquilo que ainda não vivera.

Foi então ele teve a certeza de que aquela garota o fazia se sentir de uma maneira que jamais tinha se sentido. A certeza de que do lado dela as coisas caminhavam exatamente como ele sempre sonhara que caminhassem, com a diferença de que dessa vez ele não precisava mais remar contra o rio. O rio o levava onde ele queria chegar.

Naquela tarde, com o sorriso habitual que exibia quando do lado dele, ela, direta e transparente como sempre, perguntou o motivo pelo qual ele se aproximava. Normalmente Fernando diria mil coisas tentando racionalizar aquilo que seu coração sentia. Mas dessa vez foi diferente. Ele simples e naturalmente disse a verdade numa só palavra:

O motivo era ela.

Era ela que fazia com que ele se sentisse o melhor homem do mundo simplesmente por fazê-la tão feliz e à vontade do seu lado. Era ela que fazia com que ele olhasse pra dentro dele mesmo e visse o valor das qualidades que tinha, e a pequeneza dos defeitos. Era ela que fazia com que seu coração batesse mais forte, e que ele quisesse admitir isso sem medos. Sem receios de entregar seu coração a alguém. Sem medo de achar que não era bom o suficiente. Sem necessidade nenhuma de guardar suas costas de algum ataque inesperado do destino.

E a resposta dela apenas era mais uma prova daquilo tudo.

O fluxo de pensamentos na mente de Fernando se interrompeu quando ela, sem avisar,se aproximou dele sutilmente e se aninhou em seu ombro, dizendo sem nenhuma palavra que o lado dele era exatamente onde ela queria estar, e que era decisão dela estar ali, e que o único motivo era ele.

Foram juntos até o mirante da cidade e sentaram na grama. Ela não se importou em sujar a calça na relva molhada, nem com o vento frio que subia do vale, nem mesmo com as formigas que insistiam em quer um pedaço dela. Simplesmente ria de tudo, como se a simples presença dele ali fizesse tudo ter cores belas e vivas.

E fechou os olhos docemente quando ele começou a cantar e a tocar. Quando acabou, ela bateu palmas. Ele, que já havia tocado para tantas pessoas em tantos shows, pela primeira vez realmente desejava aquele aplauso e o valorizava. A sua voz, um pouco maltratada pelo cigarro, estava um pouco rouca, e ele esquecera parte da letra. Mas ela não se importava. “só canta pra mim… quero ouvir…” ela dizia. E ele tocava, na certeza de que ninguém no mundo aos ouvidos dela possuía uma voz mais bela.

Tudo nela dizia sem nenhum pudor quem ela desejava ao seu lado. E isso não tinha nada a ver com suas qualidades e defeitos, mas sim com aquilo que ele era. O homem Fernando. O homem que ela escolhera.

Ela disse que estava com frio, e ele estendeu aquilo que de mais sincero possuía: Seus braços. E ela sem nenhum receio se aninhou neles.

Ele correu a mão em sua face, e ela o puxou pra mais perto. Fechou novamente os olhos e puxou suas mãos, fazendo com que ele a aninhasse ainda mais em seu peito. Ele, por sua vez, fitou cada centímetro de seus traços belos, do tom da sua pele, da cor de seus cabelos, da beleza de suas curvas… Cada detalhe, cada movimento, cada fio de cabelo, cada pulsar daquela mulher o fascinava. E ele permitiu se maravilhar e se inundar por ela. Deixou que seus olhos fitassem algo mais importante do que ele mesmo, seus medos e suas inseguranças. Deixou que seus braços envolvessem sua cintura. Braços que ansiavam por protegê-la e aninhá-la, sem a menor dúvida de serem capazes.

Não sentiu pressão em se aproximar. Pelo contrário. Prolongou o quanto pôde aquele momento. Acariciou seus cabelos e cheirou o aroma doce de seu pescoço. Observou a forma como seu peito arqueava a cada toque, como ela em resposta inclinava a cabeça, para que ele pudesse percorrer melhor a pele de seu pescoço. como seus olhos se cerravam tranquilamente por baixo das pálpebras. Sentiu o calor do seu corpo envolvê-lo e derreter o muro gelado que cercava seu coração. Beijou sua testa e percorreu com seus lábios a sua fronte e o seu delicado nariz. Aproximou-os das suas bochechas e as tocou levemente, sentindo a maciez de sua pele. Fechou os olhos e ouviu sua respiração lenta e compassada. Beijou suas orelhas como se fosse a forma de dizer a ela tudo o que queria.

Estar do lado dela era um bálsamo. Era como se o mundo parasse. As cores ficavam mais suaves. Os sons se abaixavam. O tempo corria mais devagar. Os pensamentos se calavam. Fernando podia sentir o sangue correndo dentro das próprias veias. Podia sentir sua pele vibrando, sua respiração queimando as narinas. Aquela torrente de sensações o atordoava. Era como se estivesse embriagado, mas a sensação era muito mais doce. Seu coração queimava, mas batia devagar, compassado. Não havia mais nada a roubar sua percepção. Tudo nele queria se apaixonar por ela.

Finalmente seus lábios se tocaram. Primeiro levemente, depois num beijo suave, demorado e apaixonado. Neste momento Fernando não mais raciocinava. Não mais analisava. Todo o seu corpo se entregou à tarefa única de sentir e destilar tudo o que havia naquela mulher, de derramar nos seus lábios o seu coração. Fez isso de bom grado, sem desejar mais nada além dela. Como se saltasse de um precipício na inabalável fé de que com certeza ganharia asas.

E foi assim que, pela primeira vez em sua vida, Fernando conheceu a divina sensação de se sentir totalmente em paz ao lado de alguém.

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