O Aikido, A.K.A. o caminho do amor

Sempre fui adepto de artes marciais. Treino desde os meus 16 anos, passei por vários estilos e todos eles me marcaram de alguma forma. Pratiquei alguns anos de boxe tailandês, vários anos de hapkido (e outras artes marciais coreanas a reboque) e tive uma breve passagem pelo jiu jitsu.

A maioria das artes marciais possuem como pressuposto a existência de um adversário a ser derrotado, bem como várias técnicas destinadas a fazer isso, com maior ou menor contundência. E é por isso que o aikido me pareceu tão estranho a princípio. Como assim? Uma arte marcial na qual não há lutas, não há competição e não há adversário?

Outra coisa que sempre me chamou no aikido é a quantidade de literatura a respeito dos fundamentos teóricos, práticos e filosóficos. Isso não se encontra em quase nenhuma arte marcial.

Morihei Ueshiba, o criador do Aikido, é conhecido até hoje como um dos homens mais espiritualizados que o Japão já conheceu. Até hoje, várias décadas após sua morte, é tratado como O’Sensei (o grande mestre).  E isso não é só entre os praticantes de Aikido. Pode ir a qualquer academia de qualquer arte marcial no Japão. Todos sabem que Ueshiba Sensei é o grande mestre. Mas por que?

O Séc. XX como um todo foi muito difícil para o Japão. Foi o século da queda do regime feudal, foi o século no qual houve o primeiro contato deles com as culturas européias e americanas, foi o século da segunda guerra mundial, foi o século de duas bombas atômicas… Tudo isso influenciou a cultura japonesa de uma maneira muito forte. Uma cultura milenar, refinada, arraigada em bases antiquíssimas, e que de repente se viu bastante anacrônica diante do mundo que se apresentava diante deles.

Um dos aspectos culturais do Japão que não resistiu à modernidade foi o Bushido, o caminho do Samurai. Embora ele fosse um caminho de vida bastante refinado e que acabava por formar não só um guerreiro, mas também uma pessoa culta e de caráter inabalável, Basicamente os samurais continuavam sendo guerreiros medievais vassalos de um senhor feudal, coisa que a Europa já tinha deixado pra trás no mínimo há um século.

A situação se agravou muito mais com a descoberta das armas de fogo pelos japoneses (o que fez com que a espada japonesa virasse peça de museu) e com o sentimento de derrota causado pela segunda guerra mundial. Tudo que mantinha os japoneses unidos durante milênios parecia não servir mais.

E foi nesse momento que vários homens trabalharam duro para preservar a cultura japonesa e ao mesmo tempo adaptá-la, fazendo do Japão o país extraordinário que é hoje.

E um desses homens foi Morihei Ueshiba.

Ele viu que no mundo moderno a força não estava mais em subjugar seus inimigos pela força. No séc. XX, mesmo que você ganhe uma luta travada contra alguém no meio da rua, isso irá te trazer problemas maiores do que aquele que você evitou (como por exemplo um processo judicial).  Fora a questão da vingança (ninguém tem peito de ferro nem olhos nas costas) e do fato que, se formos pensar bem, briga não é uma coisa nada construtiva.

E Morihei traduziu o espírito do bushido para o nosso tempo. Através de uma arte marcial bastante sutil (o aikido continua sendo um metodo eficientíssimo de quebrar a cara de alguém se necessário) ele criou um sistema de disciplina do corpo e da mente extraordinário. E isso foi só o começo.

No aikido não há luta. A pessoa que recebe o golpe se esforça para ser um oponente que ajude a pessoa que aplica o golpe a evoluir. Da mesma forma, quem recebe o golpe trabalha seus reflexos, flexibilidade… Todos ganham, diferentemente de uma luta na qual sempre há um perdedor e um vencedor.  O aikido é cooperativo no treinamento.

O resultado disso é muito interessante: Treino Aikido há anos e nunca me lesionei seriamente. Diferentemente do que acontecia com o Muay Thai, por exemplo. Eu vivia quebrado.

Fora que no boxe tailandês chega um momento no qual você não tem outra alternativa a não ser partir pras competições se quiser continuar evoluindo. E quem não gosta de competir fica perdido Já o Aikido respeita os limites e caminhos individuais do praticante. Todo mundo se encontra nele e evolui no seu próprio caminho.

Encarando a coisa dessa forma bastante estranha acabei evoluindo muito mais do que na base da porrada. E isso é uma coisa bacana: O aikido tem como princípio a harmonia. A adaptabilidade. A tolerância. E a mensagem final da coisa é: Não há inimigos. Há harmonia. Não há derrota nem vitória. Há a pessoa que melhor se adapta à situação.

Não é à toa que o Aikido é conhecido como o budo dos budos.

A profundidade do pensamento do Aikido pode ser traduzida numa conversa que tive com Charles Sensei, meu professor e amigo. Comentei com ele que havia muito romantismo em cima dos samurais, e que os verdadeiros beneficiados do status quo do feudalismo japonês eram os daymios, que tinham exércitos mortais e leais como cães. Já a vida do samurai valia “menos do que a pena de uma ave”, conforme dizia o próprio bushido.

Foi aí que Charles sensei me disse o que Ueshiba Sensei disse sobre isso:

“Por isso O’ Sensei disse: A vassalagem não é mais de homem para homem. É do homem para com Deus.”

O’sensei, domo arigato gozaimashita!

Anúncios

Sobre thevisionaire

Just a wanderer with a vision.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Uma resposta a O Aikido, A.K.A. o caminho do amor

  1. IMPRESSÕES diz:

    Legal…para saber mais sobre Aikidô acesse http://www.impressione.wordpress.com e deixe lá suas impressões 🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s