Música – Chico Buarque, A.K.A. “mirem-se nas mulheres”

Há uns posts atrás escrevi sobre os virginianos. Foi um post simples, com uma imagem e uma pequena frase que define muito bem a natureza terrena deste signo: “eu sento e observo”.

No último post sobre cartola falei sobre o mestre cafajeste-mor Chico Buarque, um dos meus compositores favoritos com no mínimo umas 2 voltas à frente de muitos outros.

E o que me faz gostar tanto de Chico Buarque é que ele não é um gênio no sentido de ter feito algo novo, nem é um desses “gênios mudernos” que fazem qualquer merda e dizem que é música. A imensa maioria das canções dele não se sustentam em um monte de metáforas ininteligíveis ou frases que parecem não ter destinatário. A obra do Sr. Francisco Buarque de Holanda é baseada unicamente na observação de coisas simples do cotidiano. As exceções a essa regra são algumas compostas na época do regime militar, quando o uso de metáforas era algo necessário para que a música não fosse censurada. Um exemplo é “cálice”, em parceria com Gilberto Gil, o que não me surpreende… já li uma entrevista do Chico em que ele diz que nem ele mesmo sabe o que quis dizer em algumas partes dessa música…

Como já disse Raul Seixas, arte é contar de forma diferente o que todo mundo sente. E nisso, que me perdoem os outros, Chico Buarque até agora não foi superado na música brasileira. O cara pega a rotina seca do peão de obra e escreve “construção”, uma música de dar nó na garganta até de Seu Lunga. Pega a rotina de todo dia de um casal e escreve “cotidiano”, uma letra que faz qualquer um querer ter uma casinha com uma mulher linda pra voltar todo dia.

E como todo bom observador que se preze, Chico sabe o bom da vida, e observou muito bem uma das coisas mais fascinantes que existem no mundo: A alma feminina. E com certeza ele compartilha neste ponto a mesma opinião que eu de que não é impossível entender as mulheres. Difícil, talvez, mas não impossível. Basta o camarada saber olhar para elas.

Um cara ordinário (no sentido literal da palavra), que trata todo e qualquer contato com um ser do sexo feminino como um martírio que acontece entre o momento do contato e o sexo, com certeza nunca vai entender mulher. Um cara que acha que mulher só serve pra exibir, pra trepar, mas na hora da diversão mesmo o fino da bola é o boteco com os amigos, não sabe o que está perdendo. Fazer o que se uns gostam de caviar e outros de feijão com arroz…?

Nesse ponto eu sou categórico em afirmar que muito homem por aí é meio viado, mas ainda não descobriu. Caras que desprezam todos os prazeres que podem ser tirados da alma feminina, da forma como elas pensam e agem.

E o que me deixa impressionado é como nas entrevistas do cara (que é super tímido, motivo pelo qual a deusa Elis Regina desistiu de gravar com ele) ele comenta das músicas que ele escreveu no eu lírico feminino com uma puta duma naturalidade. Fala rindo, usando gírias… É como se tudo aquilo pra ele fosse óbvio. Sempre com aquela cara de cafajeste e a voz de taquara rachada que lhe é peculiar (porque ele como cantor é um ótimo compositor, apesar de ser consenso entre as mulheres que um homem daquele NÃO PRECISA saber cantar!).

Numa dessas entrevistas o repórter perguntou como ele conseguia entender tanto de mulheres, escrever músicas quase como se fosse uma. E a resposta dele foi simples e direta: “não há nada de mágico nisso. Eu só observo elas”. Simples e perfeito. Mirem-se nas mulheres, já me apropriando de parte de uma música de Seu Chico.

E é isso aí. Todos os homens completos do mundo, assim como todos os bons observadores do mundo, possuem na obra de Chico uma fonte inesgotável sobre o universo feminino. Canções como Teresinha, Olhos nos olhos, Folhetim, Essa moça tá diferente, Ela desatinou, Valsinha, Deixe a menina (puta tapa na cara da homizada ciumenta) e “O meu amor”, a preferida da minha mulher. A mulher. minha linda loira de sorriso mais lindo do vérsulo inteiro, e também fãzaça de Chico Buarque.

Interessante como essa música é irônica. Ao ler pela primeira vez você acha que se trata de uma mulher se esbaldando em elogios por um cara super bom de cama e carinhoso… depois descobre que a música foi composta para um musical, e que na verdade são DUAS mulheres brigando por um cafajeste!

Como todo bom observador, Chico sabe que o mundo é irônico.

Deixo a letra para meditação.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

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Música – O mundo é um moinho, A.K.A. Amizade

Quem me conhece sabe que não gosto da cultura carioca. Não tenho a menor paciência pro sotaque chiado deles, pra porra da cidade maravilhosa (que não é lá tudo isso), pro pão de açúcar (que é só um morro), pro cristo redentor (que é pequenininho e nem é tão bonito assim), pra intimidade em demasia (que me soa falsa demais), pra “malandragem” da qual a cariocada se orgulha (só faltava canonizar Lampião) e, principalmente, pra estratégia da Globo (a imperatriz da caverna de platão versão LED e tela plana) de identificar a cultura nacional com aquela coisa da classe média do Leblon, bem a la novelas das 8 xexelentas.

Uma vez comentei com um amigo que se eu fizesse um ranking das cidades que mais gostei de visitar, levando em conta a tabela do campeonato Brasileiro, a briga pelo topo seria entre Belo Horizonte e Porto Alegre. São paulo ficaria no segundo pelotão brigando por uma vaga na Libertadores, juntamente com Brasília (minha cidade natal), Curitiba disputaria a copa sul-americana, enquanto Salvador e Rio de Janeiro dividiriam acirradamente a lanterna, conseguindo surpreendentemente ficar atrás de Goiânia, que ficaria sofrendo pra não cair pra zona de rebaixamento.

E por isso mesmo tenho grande admiração por dois caras que me fazem ter menos nojinho da cultura carioca (talvez porque eu nao os veja como cariocas, mas como cidadãos que falam a todos os brasileiros). O primeiro deles é Mestre Chico Buarque, e o segundo é Mestre Cartola.

Já vi em algum lugar que Cartola e Chico Buarque são os opostos de dois mundos. Chico é filho de família rica e intelectual, enquanto Cartola sempre foi do “povão”, morou na Rocinha, foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, passou muita barra na vida e demorou pra alcançar reconhecimento, o que nem sempre se traduziu em grana e vida melhor.

Mas o objetivo deste post não é discutir a obra desses dois mestres, e sim lembrar de um grande amigo, do qual sinto saudades imensas: Mestre Donnie César, autor do blog “moinho labirinto”, mega blog de reflexões, bem parecido com este, mas escrito por alguém que possui mais cultura do que eu.

Qualquer ser vivente intelectualmente considerável e que não tenha passado metade de sua vida em suspensão criogênica conhece a música “o mundo é um moinho”. Reza a lenda que ela foi escrita numa das noites em claro passadas por Mestre Cartola depois que descobriu que sua filha estava entrando “na vida”, ou, em linguagem menos de época para os que não tem mais de 20 anos, se prostituindo.

A letra parece uma navalha cortando as entranhas. É triste, fatalista, mas ao mesmo tempo é bela. Nota-se nitidamente o amor de quem canta para com a pessoa de quem se canta. Pura arte “vintage”, urbana e ao mesmo tempo refinada. Totalmente a cara de Mestre Donnie César – que eu sei que também é fã de Cartola.

Então fica a dica do blog (o link já foi postado acima), o recado de saudades imensas pra você, Donnie, sua puta gorda e feia, e, por fim, a letra desta bela música.

E só pra lembrar: Ninguém escapa do moinho.

————–

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

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Vento, A.K.A. Libriano

“O vento sopra onde quer. Ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito”

Evangelho de João, capítulo 3, versículo 8

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Terra, A.K.A. Virginiano


Eu sento e observo.

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Conto erótico à meia luz

Era noite de quinta feira. O meu dia da reflexão. Todas as quintas feiras eram dias de reflexão. Desde muito novo. Era o dia de deixar o pensamento correr solto, como um fio de prata esticado por um ourives, ou um redemoinho sem fim no meio do mar. Também era como um sonho. Eu me sentia grande, como se minha consciência pudesse tocar mais longe do que o meu próprio corpo. Gostava dessa sensação, embora ela me aprisionasse.

Virei os olhos e lá estava ela, deitada na cama, entre os lençóis, envolta em sua própria silhueta desenhada pela meia-luz tremulante do quarto. Uma luz opaca, cujos reflexos só se podiam ver nos seus longos cabelos loiros.

Ela sonhava. Seu rosto se contorcia levemente, seus olhos se remexiam. Sua boca estava entreaberta, e o leve arfar compassado do peito levantava suavemente o cobertor. Me perguntei onde ela estaria agora, envolta nos seus sonhos. Se talvez eu, em meu devaneio, e ela, no seu, poderíamos nos encontrar em algum lugar distante. Talvez ela sonhasse com o céu, e naquele momento, sentado na janela, eu tivesse ouvido seu chamado.

Ela tossiu. Apaguei o cigarro e fechei a janela. Sentei-me na cama suavemente e deitei ao seu lado. Enrolei seus pés nos meus. Ela sentia muito frio nos pés, eu sabia, embora o toque deles nos meus sempre me parecesse mais quente do que a minha própia pele. Roçei os lábios nas maçãs do seu rosto, também quentes ao toque. Seus olhos eram grandes, e davam essa impressão mesmo fechados. A leve curva do seu nariz se projetava para seus lábios macios e terminava em seu queixo, encontrando-se com os traços afunilados do seu rosto.

Fiquei ali, durante quase meia hora, apenas observando. Em parte porque eu mesmo raramente tinha ânsia por dormir, e em outra parte porque era bom assistir seu sono. Até que ela, num estado de semi-vigília, me puxou mais pra perto e levou as mãos em meu rosto. Me beijou com suavidade e me abraçou. Falou algo que não entendi.

Seu abraço diz o que nenhuma palavra poderia dizer. Ela sabia fazer isso, dizer com cada centímetro de sua pele o quanto me queria perto, e toda parte de mim não conseguia fazer mais nada além de ouvir. E eu cedi. Ao toque de sua pele minha mente se acalmou. Deitei ao seu lado. E naquele momento, na mais profunda certeza de que estava exatamente onde meu coração queria estar, adormeci.
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Livros que mudaram minha vida – Princesa Sultana, A.K.A. “os olhos das mulheres árabes”

No meio de tanta pressão social por corpos perfeitos, por lipoaspiração, silicone e bundas sem celulite, um ponto em específico das mulheres continua me fascinando mais do que qualquer outro: Os olhos.

Fora reações corporais meio roubadas, como os espasmos oriundos de um orgasmo, Nenhuma outra expressão do corpo é tão intensa quanto a expressão dos olhos. Já dizia o Mestre: “Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o seu corpo será luminoso. Se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.” (Evangelho de Mateus, capítulo 6)

E esse é um ponto muito interessante da cultura árabe: A mulherada do oriente médio já possui a prerrogativa de berço de possuir olhos lindos, o que é mais ressaltado ainda pela maquiagem, sempre muito bem feita (a gente nunca sabe muito bem a intenção dela, se é realçar ou causar ainda mais mistério), e pelo véu, um artefato não muito comum a nós ocidentais.

Meu avô vivia dizendo que quase melava a calça quando nos longínquos anos 40 uma mulher mostrava mais do que as canelas, e que hoje o corpo feminino ficou meio banalizado demais. Não sei se era meu vô quem era safado, ou se realmente o mundo mudou, mas acho que as mulheres árabes sabem usar muito bem o jogo do “esconde esconde” ao seu favor.

A primeira vez que vi uma mulher árabe por detrás dos véus foi quando li a trilogia da Princesa Sultana Al Saud, filha do patriarca de uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita. O grande lance é que a moça (que hoje deve ter por volta de seus 50 anos) é dona de um espirito livre demais para os padrões da sociedade em que vive, e passou poucas e boas na vida por conta deste fato, até que resolveu, com a ajuda de uma jornalista americana, contar um pouco da vida das mulheres árabes (logicamente trocando nomes, identidades e detalhes de histórias) e denunciar ao ocidente os abusos cometidos contra elas pelos homens.

A iniciativa rendeu três livros: Princesa – A história real da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus (1992), as filhas da princesa (1994) e Princesa Sultana (2000).

Minha mãe (sempre ela) me deu a dica do primeiro livro, e eu o devorei. É um romance meso-ficcional, meso-baseado em fatos reais. A princesa conta vários fatos da vida dela, bem como de fatos históricos e políticos e seu impacto no cotidiano árabe, sempre do ponto de vista das mulheres.

A história vai da infância até a maturidade da princesa Sultana Al Saud, passando pelo casamento e pela vida das filhas, que são tema do segundo livro inteiro.

A questão da repressão imposta à mulher árabe é tema corrente, como era de se esperar. Espancamentos, preterição das mulheres em favor dos filhos homens, circuncisão feminina (coisa escabrosa), pena de morte, venda de mulheres como escravas, casamentos arranjados, proibição legal de sair na rua desacompanhada, proibição legal de dirigir, etc., tudo isso são hoje práticas que até então não eram muito conhecidas pelo ocidente.

Mas o que me chamou a atenção no livro não foi só isso, e sim a forma como as mulheres conseguem manter sua feminilidade e sua influência na sociedade, mesmo reprimidas a este ponto. Isso não é um tema muito novo pra mim (quem lê a bíblia sabe como na sociedade patriarcal judaica as mulheres sempre davam um jeito de fazer sua vontade valer), mas ver a mesma coisa acontecendo às portas do século XXI foi muito interessante.

Interessante também como a moça, mesmo sendo uma princesa, é submetida a um tratamento bárbaro, impensável para nós ocidentais. Ao mesmo tempo ela pensa que se ela, uma princesa, passa por tudo isso, a vida das pessoas “comuns” deve ser muito pior. Deste pensamento, posteriormente, a princesa acabou criando o “círculo de Sultana”, uma entidade que luta a favor da criação de leis que protejam os direitos das mulheres árabes, além de dar apoio a outras vítimas de agressões.

Há histórias memoráveis, como quando Sultana faz seu marido (que a ama de paixão) concordar em conceder certos direitos e liberdades às suas filhas, e incorpora certos costumes ocidentais à sua casa. A coisa toda é conseguida na base da influência sutil e da parcimônia, bem ao estilo feminino. Algo muito mais complicado do que uma mera greve de sexo.

Outra questão bastante interessante é o ponto de vista das mulheres árabes a respeito da macheza dos homens árabes, sempre desfilando com seus carrões comprados com petrodólares, ou fazendo pouco caso do ocidente, se orgulhando de ganhar bilhões dos infiéis, vendendo seu petróleo. E no meio disso tudo mulheres que olham para esses homens e os enxergam como não mais do que seus filhos adolescentes, em arroubos infantis de falsa masculinidade.

A forma como a mulherada se faz ouvir chega a um ponto inimaginável para nós ocidentais. Tenho um amigo que morou durante 3 anos num país árabe, e ele conta que o relacionamento entre homens e mulheres no oriente médio é difícil de entender. Ao mesmo tempo em que ocorrem atos de barbárie contra as mulheres, os homens casados comem nas mãos de suas esposas. Ligam o tempo todo, avisam onde estão, nunca andam fora da linha…

Enfim, fora o fato de tratar da cultura árabe (tema muito caro para mim, como já disse no post anterior), este livro mudou minha vida porque ajudou a construir a visão que tenho do universo feminino, especialmente quanto a uma certeza: a de que tentar podar as asas de uma mulher só faz com que ela se afaste cada vez mais de você.

Pra quem tem curiosidade sobre a cultura árabe, ou mesmo sobre o universo feminino, recomendo a leitura desta trilogia.

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Livros que mudaram minha vida – Khalil Gibran, A.K.A. “fala-nos do amor.”

Minha mãe é uma mulher extremamente culta e inteligente. E desde muito novo pude desfrutar de uma das coisas mais deliciosas da minha vida inteira, que é compartilhar com ela o nosso gosto mútuo por boa leitura.

Quando eu tinha 16 anos ela me deu um livro pequeno, de nem 100 páginas e até então desconhecido pra mim,

“Guarde muito bem esse livro. Você vai ler e reler. É um dos melhores que já li.”, ela disse.

Pois bem. Este pequeno grande livro era “o profeta”, de Khalil Gibran, escritor e pintor libanês radicado nos Estados Unidos.

Sempre fui muito ligado à cultura e à sabedoria árabe. Em partes pelas raízes da religião que professo (cristianismo) e outra parte pelas minhas próprias raízes (meu avô era turco). E um dos micro eventos que me fez gostar ainda mais do lado do mundo cheio de desertos e de pessoas narigudas foi as palavras de Gibran, conhecido entre os árabes como “o amado mestre”.

A história é sobre um homem chamado Al Mustafa, um profeta que, durante 12 anos, viveu numa cidade chamada Orphalese, e que no momento em que se prepara para regressar à sua terra natal, é conpelido pelo povo, que diz “não nos deixe ainda”, a transmitir um pouco de sua sabedoria antes que se vá.

“O profeta” começou a ser escrito por Gibran ainda na sua juventude, e só foi publicado quatro anos antes da sua morte.  Só mesmo lendo para entender o que levou um homem a demorar mais de 20 anos para finalmente publicar um livro tão pequeno. É um compilado de mais profunda e simples sabedoria aplicada à vida do homem, sobre temas que são afeitos a todos nós: O amor, os filhos, a morte, o trabalho, o conhecimento… Não surpreende que o livro tenha tido tanto sucesso ao mesmo tempo nos EUA e nas arábias. Ele, que é considerado pelo próprio Gibran a sua obra prima, fala a todos, independente de idade, cultura, preconceitos ou conceitos.

Até hoje nunca encontrei outro livro que o superasse no quesito “verdades por metro quadrado”. Há outros que têm mais verdades, mas não em tão curto espaço. E poucos transmitem essa verdade com tanto enlevo, com palavras que falam direto ao coração.

E é assim que me lembro deste livro: Gotas de sabedoria para sempre lembrar (não é por nada que eu o leio até hoje, mesmo já tendo lido trocentas vezes), vindas de um homem que conseguiu reunir em seu funeral sacerdotes xiitas, sunitas, druzos, maronitas, católicos, protestantes, judeus, gregos, ortodoxos…. Todos para lembrar do homem que foi Khalil Gibran.

Segue uma das reflexões deste grande livro. Traduzem exatamente um tema que tem feito meu coração queimar (quem tem ouvidos para ouvir que leia! 😉 )

Muito obrigado, amado mestre.

Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor.”
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.

Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
“Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

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